Semana de 10 a 16 de maio de 2026
Educação, Fé e Segurança Pública na Construção da Cultura de Paz. Um manual de gestão de conflitos para comunidades religiosas.
"A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo."— Paulo Freire
I — Educação
A educação integral é, antes de tudo, uma estratégia concreta de segurança pública.
Durante décadas, a sociedade brasileira acostumou-se a discutir violência apenas depois que ela explode. Mas os conflitos sociais não surgem de forma espontânea.
Eles são produzidos em territórios marcados por ausência de oportunidades, precarização das relações humanas, fragilidade institucional e falta de pertencimento social. A educação integral aparece nesse contexto não apenas como política pedagógica, mas como estratégia preventiva.
Hannah Arendt afirmava que a educação é o ponto onde se decide assumir responsabilidade pelo semelhante. A violência é, muitas vezes, resultado de ausências acumuladas: de diálogo, de oportunidades, de reconhecimento e de projetos coletivos de futuro.
A UNESCO defende que a Cultura de Paz se constrói por meio da promoção dos direitos humanos, da justiça social e da educação para a convivência. Paz não é ausência de conflito — é capacidade coletiva de administrar conflitos sem destruir pessoas. E isso se aprende praticando.
II — Fé e Comunidade
Em territórios vulneráveis, instituições religiosas são frequentemente a única presença permanente de acolhimento e escuta.
A fé, quando alinhada ao bem comum, torna-se um ativo social poderoso. A espiritualidade possui capacidade singular de produzir sentido existencial e fortalecer vínculos comunitários.
Émile Durkheim observava que a religião desempenha papel fundamental na coesão social. Para ele, partilhar rituais coletivos gera solidariedade, tornando a vida em sociedade possível e coesa.
Dados do Censo 2022 indicam que favelas e áreas de periferia têm uma proporção maior de estabelecimentos religiosos do que a média nacional, muitas vezes superando o número de unidades de saúde ou educação formal. Essa densidade transforma o líder em figura central de referência.
Como lembra o teólogo Leonardo Boff, a paz é fruto da justiça e do cuidado. A espiritualidade autêntica não se aliena da realidade — ela produz compromisso com a vida, atuando no acolhimento, na mediação de conflitos e na promoção de estabilidade comunitária.
III — Segurança Pública
O Art. 144 da CF/88 define a segurança pública como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos.
Acesso, permanência e habilidades socioemocionais. A escola como espaço de proteção e desenvolvimento.
Geração de renda, qualificação profissional e fomento ao empreendedorismo em áreas vulneráveis.
Iluminação, lazer e saneamento que reduzem o sentimento de abandono e a territorialidade do crime.
Apoio familiar, justiça restaurativa e mediação de conflitos em lugar de apenas punição.
Tratar o uso de substâncias como saúde pública. Suporte psicológico para lidar com traumas.
Pensadores que fundamentam a proposta
A educação é o ponto em que decidimos se amamos nosso semelhante o bastante para assumirmos responsabilidade por ele.
O ato de partilhar rituais coletivos gera solidariedade, tornando a vida em sociedade possível e coesa.
A paz é fruto da justiça e do cuidado. A espiritualidade autêntica não se aliena da realidade. Ela produz compromisso com a vida.
A Proposta
Não se trata de uma proposta ingênua, tampouco de romantização dos problemas sociais. Trata-se do reconhecimento de que a violência possui raízes profundas e, portanto, exige respostas igualmente profundas.
A paz não nasce espontaneamente. Ela precisa ser construída — na família, na escola, na comunidade e na política pública.
A Cultura de Paz se constrói:
Funções das Lideranças Religiosas
Em inúmeras periferias brasileiras, líderes religiosos exercem funções que ultrapassam o campo litúrgico, ocupando lacunas deixadas pelo Estado.
Conselheiros familiares e espirituais, oferecendo suporte emocional e psicológico em momentos de crise.
Mediadores simbólicos e sociais que ajudam a resolver disputas comunitárias e familiares.
Organizando doações, creches, cursos de capacitação e reforço escolar como educadores informais.
Redes de segurança e resistência que promovem coesão social em territórios vulneráveis.
Artigo Completo
Educação, Fé e Segurança Pública na Construção da Cultura de Paz · Por Ricardo Justo
Há histórias que não nascem nos ambientes acadêmicos, nem nos livros. Nascem nas ruas estreitas das periferias, nas comunidades invisibilizadas, nos corredores silenciosos da dor humana e nas experiências que atravessam a vida antes de encontrarem palavras.
Algumas delas permanecem guardadas por anos, nas memórias daquelas pessoas que partilharam contextos situacionais reais e intensos, até que amadurecem o suficiente para se transformarem em reflexão pública, consciência política e compromisso social.
O tema desta reflexão está diretamente relacionado ao livro que se encontra no prelo, intitulado: "Pacto pela Vida: Educação, Fé e Segurança Pública na Construção da Cultura de Paz – Manual de Gestão de Conflitos para Comunidades Religiosas".
Esta obra nasce da compreensão de que a violência não pode ser enfrentada apenas pela lógica policialesca repressiva, mas exige uma abordagem integrada, humana, educativa e comunitária, perspectiva amplamente defendida por especialistas em segurança pública.
Além disso, vários sociólogos e defensores dos direitos humanos defendem a ideia de que a repressão (policiamento ostensivo, prisões) é insuficiente por si só — baseia-se na compreensão de que a violência é um fenômeno complexo, fruto de múltiplos fatores.
A origem desse pensamento remonta a uma lembrança da minha infância. Em uma vila de pescadores da Lagoa Rodrigues de Freitas, no Rio de Janeiro, um conflito entre vizinhos rompeu a tranquilidade de uma noite aparentemente comum. Vozes exaltadas, medo coletivo e a chegada da polícia marcaram aquele episódio.
Contudo, o que ficou gravado na minha memória não foi apenas a tensão, mas a intervenção posterior de um líder comunitário. Meu bisavô que, sem armas ou autoridade formal, conseguiu transformar a dinâmica daquele conflito por meio da escuta, da palavra equilibrada e do respeito humano.
Naquele episódio estavam presentes, ainda que de forma intuitiva, três elementos fundamentais para qualquer projeto civilizatório comprometido com a paz: a segurança pública, a fé como força ética e a educação comunitária como instrumento de transformação social.
Como bem nos ensinou o educador Paulo Freire, "a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo"1. Talvez seja exatamente nesse ponto que devamos começar a discutir segurança pública no Brasil contemporâneo.
Com esse quadro categórico em tela, o Boletim informativo semanal desta semana, em seu resumo dos principais fatos que ocorrem na Bahia, no Brasil e no Mundo, refletirá sobre a urgência da articulação em torno do trinômio "Educação, Comunidades Religiosas e Segurança Pública".
Aconteceu, o Justamente News explica! Boa Leitura!
Durante décadas, a sociedade brasileira acostumou-se a discutir violência apenas depois que ela explode. Entretanto, os conflitos sociais não surgem de forma espontânea. Eles são produzidos em territórios marcados por ausência de oportunidades, precarização das relações humanas, fragilidade institucional e falta de pertencimento social.
A educação integral aparece, nesse contexto, não apenas como política pedagógica, mas como estratégia preventiva de segurança pública. Educar não significa somente transmitir conteúdos escolares; significa formar consciência ética, desenvolver capacidade de diálogo e construir responsabilidade coletiva.
A filósofa judia-alemã Hannah Arendt afirmava que "a educação é o ponto em que decidimos se amamos nosso semelhante o bastante para assumirmos responsabilidade por ele"2. Essa responsabilidade coletiva é justamente aquilo que falta quando a violência passa a ser tratada apenas como caso de polícia.
De acordo com Arendt, a crise da tradição na modernidade gera uma ruptura na transmissão de experiências entre gerações. Para ela, essa lacuna redefine a relação entre passado e futuro. O que chamamos de crise na educação é o reflexo da crise de autoridade e da crise de tradição.
Grande parte das violências urbanas contemporâneas está associada à ruptura de vínculos comunitários. Jovens sem perspectivas, famílias fragmentadas, escolas enfraquecidas e comunidades sem espaços de convivência tornam-se ambientes vulneráveis à escalada dos conflitos.
A violência, muitas vezes, é resultado de ausências acumuladas: ausência de diálogo, de oportunidades, de reconhecimento e de projetos coletivos de futuro. Por isso, investir em educação integral não é romantismo social. Trata-se de uma estratégia concreta de prevenção.
A violência estrutural, definida como danos causados por sistemas sociais, econômicos e políticos que impedem grupos de atingir seu potencial máximo (desigualdade, falta de acesso à saúde, pobreza extrema), é combatida de forma mais eficaz através de mecanismos preventivos do que punitivos.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) defende que a Cultura de Paz se constrói através da promoção dos direitos humanos, da justiça social, da valorização da diversidade e da educação para a convivência.3
O Artigo 1º da "Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz" diz que Cultura de Paz é um conjunto de valores, atitudes, tradições, comportamentos e estilos de vida baseados em:
Esse artigo primeiro conclui que, animados por uma atmosfera nacional e internacional que favoreça o respeito à vida em sua plenitude, devemos entender que Paz não é ausência de conflito, mas capacidade coletiva de administrar conflitos sem destruir pessoas, o meio ambiente e bens materiais. E isso se aprende praticando.
Em muitos territórios vulneráveis, as instituições religiosas, de todas as matrizes, continuam sendo uma das poucas presenças permanentes de acolhimento, escuta e orientação moral. Quando alinhada ao bem comum, a fé torna-se um ativo social poderoso.
A espiritualidade possui capacidade singular de produzir sentido existencial, fortalecer vínculos comunitários e reconstruir identidades feridas pela exclusão social. Não se trata de substituir políticas públicas por religião. Trata-se de compreender que o enfrentamento da violência exige também uma dimensão ética e simbólica.
O sociólogo Émile Durkheim já observava que a religião desempenha papel fundamental na coesão social, ao produzir pertencimento e fortalecer valores coletivos. Para ele, a religião é uma força social que transforma interesses individuais em um propósito coletivo, tornando a vida em sociedade possível e coesa.4
Émile Durkheim entende a religião como uma função integradora na sociedade, afirmando que "mesmo que as pessoas não acreditem exatamente nas mesmas coisas, o ato de partilhar rituais coletivos gera solidariedade", o que ele chamou de solidariedade orgânica ou mecânica, dependendo do contexto da sociedade.
Em inúmeras periferias brasileiras, líderes religiosos exercem funções que ultrapassam o campo litúrgico. Tornam-se conselheiros, mediadores, educadores informais e referências de estabilidade comunitária, ocupando lacunas deixadas pelo Estado.
Foi exatamente isso que aquela memória da minha infância, lá na vila de pescadores da Lagoa Rodrigues de Freitas, revelou: um líder comunitário conseguindo interromper a escalada da violência não pela imposição da força, mas pela legitimidade construída no cotidiano das relações humanas.
A gestão de conflitos, nesse sentido, deixa de ser uma técnica restrita aos tribunais ou às instituições formais e passa a integrar o cotidiano das comunidades, com lideranças religiosas cumprindo funções que vão além dos ritos litúrgicos:
Dados do Censo 2022 indicam que favelas e áreas de periferia têm uma proporção maior de estabelecimentos religiosos do que a média nacional, muitas vezes superando o número de unidades de saúde ou educação formal. Essa densidade religiosa transforma o líder em uma figura central de referência.5
A religiosidade é frequentemente uma forma de resistência e organização da vida cotidiana nas periferias. A atuação vai além da fé, engajando-se na promoção de direitos e na construção de um "bem comum", servindo como um pilar de apoio em microterritórios urbanos e rurais com altos índices de violência.
Quando a prática da fé nas comunidades religiosas segue desconectada da responsabilidade social, invariavelmente se torna um mero discurso abstrato. Mas, quando associada à defesa da dignidade humana, torna-se instrumento concreto de transformação.
O teólogo Leonardo Boff lembra que "a paz é fruto da justiça e do cuidado". Essa compreensão amplia o papel das comunidades religiosas na construção da Cultura de Paz. A espiritualidade autêntica não se aliena da realidade. Ela produz compromisso com a vida.6
Existe um erro recorrente nas políticas públicas brasileiras: imaginar que segurança pública se resume ao combate armado ao crime. Evidentemente, o Estado possui dever constitucional de proteger a população e conter a violência. Contudo, a repressão isolada não resolve conflitos estruturais.
Naquela noite da minha infância, a simples presença de policiais militares encaminhou a contenção de uma crise imediata. Mas o que sustentou a pacificação posterior foi o diálogo comunitário. A autoridade é necessária. Mas autoridade sem legitimidade social tende a produzir medo, não convivência.
Na memória daquele episódio existe também outro personagem: um jovem policial recém-ingresso na corporação. Ele chegou preparado para controlar a situação. Era isso que aprendera. Contudo, ao observar a intervenção comunitária, percebeu algo fundamental: conflitos humanos não são apenas problemas operacionais; são também problemas relacionais, culturais e educacionais.
Como prevenir aquilo que depois somos obrigados a conter?
Essa pergunta precisa orientar as políticas públicas do presente.
O Artigo 144 da Constituição Federal de 1988 define a segurança pública como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos. Exercida para a preservação da ordem pública e incolumidade das pessoas/patrimônio, envolve órgãos federais (PF, PRF, PFF), estaduais (PC, PM, Bombeiros, Polícia Penal) e Municipais (Guardas).7
Essa formulação jurídica revela algo profundo: a construção da paz exige corresponsabilidade social. A segurança pública precisa ser compreendida de forma ampliada: como proteção da dignidade humana; como fortalecimento dos vínculos comunitários; como promoção de oportunidades; como gestão preventiva de conflitos; como construção de ambientes sociais sustentáveis.
É imperiosa a mudança de paradigma na segurança pública e na política social: sair do modelo meramente reativo (combater) para um modelo preventivo e estrutural, na produção de condições para que a violência não floresça, o que significa atuar nas raízes do problema.
Os pilares fundamentais dessa abordagem são:
Em resumo, combater a violência (policiamento, sistema prisional) é necessário no curto prazo, mas produzir condições (educação, emprego, urbanismo) é o único caminho para a construção de uma Cultura de Paz sustentável a longo prazo. É trocar a "cultura do medo" por uma "cultura de direitos".
Este artigo da Newsletter "Justamente News", ao apresentar o livro "Pacto pela Vida: Educação, Fé e Segurança Pública na Construção da Cultura de Paz", demonstra que esta proposta nasce exatamente nesse ponto de interseção entre educação, espiritualidade, gestão de conflitos e políticas públicas.
Não se trata de uma proposta ingênua, tampouco de romantização dos problemas sociais. Trata-se do reconhecimento de que a violência possui raízes profundas e, portanto, exige respostas igualmente profundas. A paz não nasce espontaneamente. Ela precisa ser construída.
A cultura de Paz se constrói na família que acolhe e educa; na comunidade de fé que humaniza; na escola que ensina e encaminha; na comunidade do bairro que dialoga; na política pública que previne; na segurança pública que protege sem perder a dimensão humana.
O nosso livro "Pacto pela Vida: Educação, Fé e Segurança Pública na Construção da Cultura de Paz", mais do que um manual técnico, é um "Pacto pela Vida". Um convite à responsabilidade coletiva. Um chamado à construção consciente de microterritórios de paz.
Porque, no fundo, aquela história iniciada numa pequena vila de pescadores da Lagoa Rodrigues de Freitas não pertence apenas à memória de um menino. Ela continua sendo, ainda hoje, a história de milhares de comunidades brasileiras que seguem tentando responder à mesma pergunta:
Como transformar a convivência em paz antes que o conflito se transforme em violência?
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Infográfico da Edição
Resumo em Áudio
A Pergunta que Permanece
Aquela história iniciada numa pequena vila de pescadores da Lagoa Rodrigues de Freitas não pertence apenas à memória de um menino. Ela continua sendo, ainda hoje, a história de milhares de comunidades brasileiras.
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